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Agora a Sério

Um local sério para se falar das coisas sérias de todos os dias. Só para pessoas que se levam muito a sério.

Agora a Sério

Um local sério para se falar das coisas sérias de todos os dias. Só para pessoas que se levam muito a sério.

O que eu não percebo nos Santos Populares

amaralrita, 12.06.15

Chegou a noite em que Lisboa se torna ainda mais bela, chegou a noite em que Lisboa mostra toda a sua tradição, chegou a noite em que Lisboa vive tudo aquilo que tem para dar. Só tem o grave problema de ser a pior noite do ano.

 

Eu sou toda a favor dos Santos Populares, das marchas, dos manjericos, das sardinhas, das cervejas, do convívio, enfim, eu sou por tudo! Mas é tão chato tornar a noite de 12 de Junho interessante. É que não dá, porque as pessoas todos os anos fazem as mesmas asneiras, queixam-se de que a noite foi uma confusão, prometem que nunca mais regressam mas no ano seguinte fazem tudo outra vez, como se não lembrassem de nada!

 

Por favor, se vão aos Santos hoje à noite pensem duas vezes e arranjem uma estratégia decente. Deixem de fazer o que toda a gente faz e perguntem-se a vocês próprios se vale a pena cometer os mesmos erros. Examinem bem a vossa vida e não tenham estas ideias brilhantes.

 

Temos de ir a Alfama - mas porquê temos? Até há Santos na margem sul, porquê ter de ir a Alfama?

 

Andar de um lado para o outro a encontrar pessoas - só há pessoas na rua, para quê acharmos que somos especiais e vamos ser aqueles que vão mesmo encontrar os amigos?

 

Comunicar por telemóvel - já toda a gente sabe que não há rede mas não custa tentar.

 

Procurar pela cerveja mais barata - tipo é os Santos, está tudo ao mesmo preço inflacionado, se não tens dinheiro, fica em casa.

 

Querer a sardinha especial - se não há aqui, há na banca a seguir, e na a seguir, e na a seguir, e na a seguir, e na seguir, e na seguir...então a perceber, não é?

 

Eish não me apetece ficar aqui - mas será que é melhor andarmos aos encontrões só para andar meio metro? Fiquem num sítio só, se faz favor.

 

Vamos ver a festa nas Portas do Sol - chegamos lá e já não há festa nenhuma, qual é a parte do vamos ficar quietos num sítio a conviver que as pessoas não percebem?!

 

Está na hora ideal de irmos à Sé - e é a hora ideal porque é a hora que toda a gente também vai.

 

O mais fácil é voltarmos de taxi para casa - esperar duas horas em pé na fila não é o meu conceito de fácil, mas pronto.

 

Ah eu levo carro, eu conheço um sítio em que há sempre lugar - deve haver lugares para estacionar ilimitados em Lisboa.

 

Esperamos até as 6 pelo metro - mas espera bem porque não vais apanhar nem o primeiro nem o segundo.

 

Eu vou sair com uns amigos mas encontramo-nos em Santa Apolónia para voltarmos para casa juntos - boa sorte nisso, vemo-nos em Setembro, então.

 

Encontramo-nos no Terreiro do Paço e depois logo se vê - lá diz o ditado, é mais fácil subir do que descer.

 

Eu contra mim falo porque já sei que vou sair, já sei que vai correr mal, já sei que me vou chatear, já sei que vou acordar mal no dia a seguir, já sei disso tudo. Mas vamos à mesma, porque do que o português gosta é de festa.

Meus Queridos Ray-Ban

amaralrita, 08.06.15

Quando uma menina se torna mulher começa a perceber que quer estar sempre na moda, sempre com estilo - e começa então a desenvolver a panca das malas, dos sapatos, dos brincos, dos anéis e, finalmente, dos óculos de sol.

 

Depois de anos a aumentar os lucros da H&M a comprar óculos de sol a seis euros, um verão decidi que me ia tornar numa pessoa adulta, séria, com objectivos de vida ambiciosos: decidi que ia comprar uns Ray-Ban.

Mas isto não é comprar só mais um par de óculos de sol: isto era um investimento mais arriscado do que as acções na Wall Street. Eu ia gastar mais de dois dígitos em duas lentes escuras que iriam cobrir os meus olhos para sempre.

 

O problema disto tudo é que a Rita com 18 anos ainda não tinha a inteligência de hoje - ela era fantástica, certo, mas faltava-lhe a genialidade dos 22 para poder fazer uma compra com pés e cabeça.

Primeiro, embirrou que os escolhidos iam ser uns Ray-Ban Aviator, porque era para parecer cool (coitadinha, já passou);

Depois, quanto maior fossem, melhor (tem um metro e meio mas pensa que tem uma cara gigante, ai ai);

E ainda teve a brilhante ideia de que mais valia comprá-los pela Internet do que comprar numa loja - temos de, porém, fazer a ressalva que a pequenina foi a uma loja, experimentou, apontou o modelo e depois é que foi comprar. Ela não era brilhante mas era inteligente, vá.

 Óbvio que quando os recebeu eles estavam um pouco largos e as lentes escuras e as hastes douradas chamavam demasiado à atenção - afinal, só ia usar de vez em quando. Mas que raio, então andei eu a demorar a comprar uns Ray-Ban para os deixar em casa? Nem pensar!

 

E pronto, lá foi a criança explorar o mundo com uns Ray-Ban na cara. Podia estar nevoeiro, a chover a potes e de noite, mas aquilo não saia da cara. Se estava atrasada para sair de casa mas não levava os óculos, mais valia voltar para trás e perder o autocarro. Era um excelente namorado, lá isso era. Tão bom que ela estava desejosa de os estrear na praia. Já estão a ver bem a cena: mar, areia, sol, selfies com aquele óculão ao pôr-do-sol - oh o problema é que na altura ninguém usava Instagram mas há registos para a eternidade.

 

Mas foi também nesse cenário perfeito que o nosso namoro acabou. Estava eu deitada na toalha, com a cabeça de lado e quero-me levantar e dou um jeito ao pescoço tão grande que enfio a cara na toalha. Quando me levanto, olho em frente e a minha visão tem um risco. OH NÃO. A LENTE ESTÁ RACHADA.

Foi tão grande o salto que dei que fiquei com outro torcicolo. E quis chorar, em desespero. Nem brinquem com coisas sérias que eu fiquei mesmo deprimida. Nem tínhamos comemorado os nossos seis meses. Fiquei de coração partido, isolei-me do mundo e disse que nunca mais ia comprar uns óculos de sol. Eles eram o amor da minha vida, como poderia eu encontrar outra pessoa como eles? Nesse Inverno e nos anos seguintes fui ao cemitério dos óculos de sol (a taça em cima do aquário no escritório) e usei os velhos óculos de sol da H&M. Eu estava de luto e ninguém poderia preencher o vazio daquela partida.

 

Os anos foram passando e eu tive de arranjar outros amigos mas nunca tive a coragem de regressar aos Ray-Ban. Eu não podia comprar outros, outros que não aquele, por isso não valia a pena tentar. Com o tempo, aprendi a amar de novo e a deixar que outros óculos, outros modelos e outras cores me deixassem feliz. Hoje a minha panca por óculos de sol continua acessa mas já não me deixo ser monopolizada. Tenho vários pares para que o amor seja partilhado. Mas no outro dia a saudade bateu, quando uma amiga disse-me "lembras-te dos teus Ray-Ban? Como é que eram? Eu queria uns parecidos".

 

Oh, no que ela se foi lembrar.

Aaaah, o preto das lentes a contrastar com o dourado.

A maneira suave como deslizavam para a minha cara.

Aquele espaçinho por debaixo das lentes em que eu via o mundo metade bronzeado metade normal.

A marca que deixavam no nariz porque eu apertava-os tanto contra mim para não fugirem.

As vezes que eu os puxava para cima para nunca me abandonarem.

 

Hoje estive quase para remendar o meu coração e procurar por outros RayBan mas sinto que ainda não é desta. Sinto que sou feliz como sou e não quero estragar as memórias felizes que passámos juntos. Talvez daqui a um, dois anos, quem sabe, nós possamos encontrarmo-nos de novo e recomeçar a nossa história de amor. Não sei como será o futuro mas se quiserem façam figas comigo, talvez esta história tenha um final feliz.

 

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Parabéns, mana

amaralrita, 05.06.15

Estou farta desta discussão e por isso mesmo vamos já por os pontos nos ís:

 

Vocês podem ter um ou três irmãos e eles podem fazer imensas coisas:

eles podem ganhar o Prémio Nobel da Paz

podem conhecer o Dalai Lama

podem ser Presidentes de qualquer país

podem ser a nova Beyoncé

podem ser o Brad Pitt ou o Tom Cruise do cinema

podem participar no Game of Thrones

podem ser a reencarnação do Freddie Mercury

podem ser o próximo John Lennon

podem ter um musical na Broadway

podem ser o Jon Stewart

podem ser donos do BES

podem ser o melhor guitarrista do mundo

podem ir ao espaço

podem escrever o novo Harry Potter ou o novo Senhor dos Anéis

podem ser melhores que o Spielberg

podem descobrir a cura para a SIDA

podem descobrir o sentido da vida

 

Os vossos irmãos podem fazer uma catrefada de coisas na vida mas tenho uma má notícia para vos dar: eu vou continuar a ser a pessoa que tem a melhor irmã do mundo.

 

Eu sei que não é justo, que é triste, que vocês não podem fazer nada quanto a isso, que os vossos irmãos são fantásticos. Mas não dá. Lamento imenso, mas quem tem a melhor irmã do mundo sou eu.

Pronto, o melhor irmão do mundo já nasceu há 25 anos e os vossos pais ainda pensam que podem ter mais um filho para remediar a coisa, mas não. Desculpem, mas não há nada a fazer.

Eu até vos fazia uma lista de coisas que fazem com que ela mereça este título, mas eu não gosto de fazer inveja às outras pessoas - e eu não quero que a Madre Teresa de Calcutá dê voltas ao túmulo, envergonhada por não ter conseguido ser tão boa quanto a minha irmã.

 

Mas não fiquem chateados comigo, podem conhecê-la, falar com ela, dar-lhe beijinhos e abraçinhos, aturá-la, levá-la a jantar fora, cantar e dançar com ela, é tudo na boa. Eu partilho-a com vocês mas nunca se esqueçam que sou eu que fico com o título. É do género fiquem com a taça mas o meu nome é que está lá.

 

Isto tudo só para dar os parabéns à minha irmã e para me queixar ao Governo de ainda não ter proposto ser feriado nacional neste dia. Já se passaram 25 anos, minha gente, já está na hora.

 

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Crianças Felizes

amaralrita, 01.06.15

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"Ah pá porra esqueci-me que hoje era dia da criança e não escrevi nada sobre o assunto"

 

É que isto de ter um blogue não é só escrevermos aquilo que a gente quer. Às vezes, fica bem assinalar datas importates. E ainda por cima o dia dedicado às crianças, aos bebés que só têm um mês e são horríveis, aos inocentes que te enchem de baba e ranho, aos pestinhas que se infiltram na tua casa e te desarrumam tudo, aos hiperactivos que acham que as melhores alturas para se fazer barulho é às sete da manhã e às onze da noite, aos simpáticos que adoram chorar ao teu ouvido, aos curiosos que só sabem dizer porquê cinquenta vezes de seguida, aos que têm o talento nato de fazerem birra que só dura dois minutos, aos megalómanos que querem a PS6 quando acabou de sair a PS5, aos miúdos mais velhos com cabelo à fodasse com a mania que são espertos, às miúdas loiraças que já fazem a manicure para sairem à noite. Ai a inveja que eu tenho dessas criaturas que só têm uma obrigação na vida: divertirem-se.

 

O ser humano é mesmo assim, insatisfeito: quando somos crianças queremos ser crescidos, quando já somos crescidos, queremos ser crianças. Mas eu também não me posso queixar muito, eu ainda sou jovem e mesmo que não fosse, os disparates que eu faço parecem de uma criança de sete anos. Entornar cervejas, bater com os pés no canto da cama, deixar cair cereais no chão, sujar o microondas, deixar a carteira em casa, queimar-me no ferro de engomar (e no isqueiro do carro), arrancar peles dos dedos, deixar o cartão de débito no carro ao sol, conduzir com a tampa do depósito de gasolina aberto, enfim, as aventuras são tantas que a minha idade é só real no Cartão de Cidadão.

 

Eu até poderia argumentar que este dia é meu e que eu tenho todo o direito de o celebrar mas estava a mentir, porque todos os dias são dias da criança para mim. Todos os dias são dias de fazer algum disparate e alguém vai dizer "epá oh Rita, tá quieta, só fazes porcaria". Eles bem têm pena de já não puderem por-me de castigo a um canto por isso a única alternativa é deixar-me à solta e rezar para que eu não bata com a cabeça nas paragens de autocarro ou me aleije nas portas de vidro dos restaurantes. Talvez um dia cresça e me torne adulta mas estou a fazer figas para que isso não aconteça tão cedo. A única vantagem de ser adulta é que seria menos parva e teria menos nódoas negras, mas não se pode ter tudo na vida.

 

Feliz Dia da Criança, desde 1992.

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