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Agora a Sério

Um local sério para se falar das coisas sérias de todos os dias. Só para pessoas que se levam muito a sério.

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Os mistérios da minha mala

Já vos falei aqui da minha grave doença com malas, mas nunca vos disse a causa deste mal.

Bem, não existe grande mistério quanto à causa: eu sou mulher logo a mala é um objecto sagrado que nos salva de tudo. Se as mulheres não andassem com malas, não seríamos esses seres superiores que andam sempre prevenidas. No entanto, há mulheres prevenidas e depois há pessoas a roçar a loucura, como eu. Mas há um pormenor bastante importante: a minha mala é do povo.

Eu literalmente ando com a casa de alça no ombro porque há sempre qualquer coisa de que eu preciso ou de que os outros precisam (porque aparentemente eu sou tão simpática que o que é meu é do povo). Mas então o que é que leva a minha mala?

 

Primeiro há os básicos: lenços de papel, chaves de casa, chaves do carro ou passe, batom do cieiro, tanta coisa. E esses estão perdidos na mala, porque na carteira, há trezentos cartões para fazer compras, cartões de passe, montes de recibos de 65 cêntimos, papelinhos que eu não sei bem onde nasceram, moedas, pen drives, anéis e outros objectos sem sentido. Mas isto é apenas o básico.

 

Depois não é só os óculos de sol, é a caixa dos óculos de sol, que depois dos desastres passados, tem de ser à prova de bala. É às florzinhas e não cabe em nenhuma pochete, logo tenho de andar de mala.

 

Depois é o tablet. Ter um telemóvel já não chega, eu sou uma pessoa muito ocupada e não quero ficar pitosga aos 25 anos. Quando é preciso trabalhar, uma pessoa séria como eu tem de estar sempre preparada.

 

Depois a garrafa de água. Garrafas de meio litro, às vezes duas ou três, ou só uma de um litro. E às vezes mais uma garrafa com chá. São pancas de pessoas saudáveis, sabem?

 

Depois são as bolachas, já que pessoa saudável anda sempre com a marmita atrás. A minha mala já é uma segunda despensa, vai tudo lá para dentro, com migalhas à mistura.

 

Depois é o creme para as mãos. Eu não gosto nada de andar com mariquices destas mas ultimamente têm dado jeito logo vão para a mala.

 

Depois é o verniz das unhas. Estão a ver aqueles dias em que a unha ficou mal pintada e saímos de casa a correr e não conseguimos acabar? Pois mais vale levar para o trabalho que arranjamos cinco minutos na hora de almoço para cobrir os estragos.

 

Depois é a bolsinha da maquilhagem. Mais uma vez, acordou-se tarde, não há tempo, temos um jantar logo à noite, borramos o eyeliner a coçar os olhos de manhã, a base não ficou bem espalhada, tanto faz, mas é preciso andar com maquilhagem.

 

Depois é o carregador portátil. Já estamos no século XXI e a desculpa do "fiquei sem bateria" já não cola. Pessoas importantes têm de estar sempre contactáveis!

 

E depois temos os visitantes que aparecem de vez em quando: a máquina fotográfica, o jornal Metro, as revistas, o bloco de notas, ténis, sabrinas e mais e mais coisas para que a minha mala fique maior que o Godzilla.

 

Eu vivo assim há anos e juro que tenho tentado combater a doença mas quando eu começo a tentar reduzir as coisas que levo dentro da mala, há sempre um raio de um amigo qualquer, seja de manhã ou à noite, que começa a pedir coisas e o povo vai todo atrás e também começa a pedir: "Tens isqueiro? Tens pastilhas? Tens troco de 5 euros? Tens o teu carregador? Tens trocos? Tens uma pen? Tens uma caneta? Tens uma folha?"

 

A minha mala faz inveja ao Doraemon e à sua bolsinha. Qualquer dia ando com uma bola de bowling, um teclado, um quadro de apresentações, uma lâmpada, um berbequim, um escadote, um balde de tinta, sei lá onde é que isto vai parar. A culpa não é minha porque eu até queria deixar estes maus hábitos mas são os outros que puxam por mim, a querer dar-me alguma utilidade nesta sociedade.

 

Se calhar isto ainda vira negócio, olhem só as pessoas pagarem-me para andar com as coisas delas! Daqui a uns meses digo-vos como correu.