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Agora a Sério

Um local sério para se falar das coisas sérias de todos os dias. Só para pessoas que se levam muito a sério.

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Os homens de fato e gravata

Há algum tempo que vos quero falar dessa espécie animalesca que abunda na sociedade portuguesa que é o homem de fato e gravata.

Eles são uma espécie curiosa, longe de estar em vias de extinção. São mais que as mães e estão em cada canto, a cada esquina, a espalhar o seu "charme" e a dizer ao mundo que nunca se esqueçam deles. Bah, odeio-os de morte.

 

Os homens de fato e gravata têm a vida mais simples de mundo. Fazem um curso qualquer e uma semana antes de irem para a Semana Académica já sabem que vão trabalhar para as Delloites desta vida. O jovem ainda nem fez exames e não sabe se a média de curso é de 12 ou 15 mas o mundo já anda desesperado para que ele vista o fatinho e comece a trabalhar.

Mal sabe do trabalho, o pobre coitado diz ao pai que precisa de um fato mas é a mãezinha que trata de tudo. Tem de ser feito à medida, um preto, outro azul escuro e mais tarde tem de se comprar um para o verão. O paizinho só se mete quando é para discutir as gravatas: pela mãezinha, levava uma de cada cor, com bolinhas e risquinhas, para que ele pudesse ter uma gravata sobressalente caso se suje à hora de almoço. Ainda estão mais uma hora a ver sapatos mas o filhote só quer comprar a t-shirt branca para poder levar para o Sudoeste.

 

E lá chega o primeiro dia de trabalho de uma existência bastante pacífica que vai durar anos e anos.

Ser um homem de fato e gravata é a coisa mais fácil do mundo. Tudo começa logo de manhã: a roupa já está preparada todos os dias, só tem de alternar o casaco de inverno e o cachecol com o parka e o guarda-chuva. Com sorte ainda consegue usar a mesma camisa branca três dias seguidos, porque quem é que vai notar mesmo? E nem me venham com a história da barba, que dá trabalho e tal, porque não dá, porque agora já é socialmente aceite um homem ter barba, logo qual é a dificuldade em aparar uns pelinhos na cara? Dificuldade é meter creme + primer + base + corrector + bronzer + blush + máscara + eyeliner + sombra + pó + whatever.

 

Já a viagem para o trabalho não envolve grande esquema: quem vai de carro para o trabalho, às vezes leva a pastinha só dar um look diferente mas os que andam por aí têm um look mais laid-back: carteira no bolso e mais nada. Os únicos acessórios permitidos são fones para ligar ao smartphone e um livro de fantasia que não seja muito maior que a mão - quando mais estranha for a capa, melhor.

 

Depois ele fecha-se no escritório à frente do computador a fingir que trabalha mas o seu verdadeiro trabalho só é feito na rua, em contacto com as pessoas, a mostrar que não faz nada de especial na vida mas que é super importante. Se no horário da manhã dá o seu ar de graça a fumar o cigarrinho de dez em dez minutos, na hora de almoço sai com os amigos todos em manada e juntos mostram toda a sua pujança. Enquanto as pessoas andam com a marmita atrás e comem da tupperware nos bancos dos jardins, eles aparecem no Atrium Saldanha, de mãos a abanar, à espera para comer um super pratão com tudo a que têm direito e ainda terem tempo para dois dedos de conversa com cafézinho a acompanhar. O mundo está em crise mas eles dispensam as filas para o microondas e mantêm-se fiéis aos menus acima dos 10 euros. Cuidados alimentares não é com eles porque a barriga de cerveja só aparece com os cabelos grisalhos, o Mercedes na garagem e os 5 mil euros na conta bancária todos os meses.

Depois do trabalho não são de papar ginásios, preferem as after-hours nos hotéis da Avenida da Liberdade, sempre com mais dois amigos e uma mulher, só para mostrarem que são afáveis e têm amigas. Fazer o jantar, ver televisão, lavar a loiça são tudo noções que não existem para eles, porque a vida está toda feita, não é assim?

 

Isto pode parecer todo um post cheio de preconceitos e estereótipos mas eu não tenho nada contra eles. Eles que encham as ruas de todo este Portugal que eu tou-nem-aí. Para aqueles que acham que eu tenho inveja, deixo-vos a minha verdadeira opinião sobre esta espécie: podem ser os maiores do mundo mas eu não gostaria nada de viver em Lisboa com 30 graus e não poder andar de sandálias e calções. Aquele fato escuro, aquela camisa branca com um tecido grosso, aquela gravata que aperta o pescoço, aqueles sapatos pretos fechados com as meias até ao meio da perna...ai a inveja que eu tenho de não ser um homem de fato e gravata.

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