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Agora a Sério

Um local sério para se falar das coisas sérias de todos os dias. Só para pessoas que se levam muito a sério.

Agora a Sério

Um local sério para se falar das coisas sérias de todos os dias. Só para pessoas que se levam muito a sério.

Buda, de Karen Armstrong

É sempre complicado para mim escolher um livro para ler. Tem a ver com o meu estado de humor: se quero ler um clássico da literatura ou se quero algo soft, ou algo divertido, ou algo histórico, ou algo marcante - já para não falar que tenho de escolher se me apetece ler em Português ou em Inglês, o que condiciona bastante a minha escolha final. E cada vez que olho para a quantidade de livros que tenho em casa fico sempre com o mesmo pensamento: com tanta porcaria (salvo seja) como é que eu não consigo escolher um livro qualquer para ler?

 

A falta de tempo ou de paciência ou motivação deixam-me sempre indecisa e acabo por não escolher nada, acabo por passar meses sem ler nada, acabo por perder tempo noutras coisas menos produtivas. Mas este ano tenho de forçar-me a ler mais, a conhecer mais, a viver mais literatura. E nesta última semana forcei-me a ler alguma - e a solução passou por ler uma segunda vez um livro: Buda, de Karen Armstrong.

 

Comprei-o há uns anos atrás porque estava interessada em conhecer mais sobre o Budismo e este livro tem todo o ínfimo pormenor sobre a história da filosofia budista e da sua figura central. Escrito por uma historiadora de religião altamente qualificiada, o livro pode parecer pequeno mas tem mesmo muita informação: até para uma pessoa com tendências jornalísticas, isto até é informação a mais, mas tem de ser, porque os trabalhos académicos são coisas sérias e quando são bem escritos devem ser reconhecidos e recomendados. Depois da introdução extensa, o livro segue a cronologia da vida do Buda, começando na sua primeira vida, passando pela sua conversão e iluminação e terminando no momento da sua morte. O intituito não é fazer reflexões sobre a importância de Buda na actualidade, mas sim dar uma biografia à pessoa que Buda foi no tempo que viveu. Pegando no cliché da coisa, o livro escreve sobre o homem e não a lenda.

 

E agora vocês perguntam-me: então gostaste mais da segunda vez? Sinceramente, não mudou nada desde a primeira leitura. Gostei mais da parte final do livro e mesmo com uma segunda tentativa, não me converti ao Budismo. Contudo, vai continuar a ser um dos meus livros preferidos, muito porque eu gosto de ler sobre religião e através do trabalho fantástico de Armstrong, conheci a fundo a história do Budismo e o seu espírito, bem como a forma como a bibliografia consultada foi tratada, o que torna todos os detalhes informativos mais fidedignos.

 

Queria colocar algumas passagens que me interessaram bastante na segunda leitura mas como elas são gigantescas, aqui fica a última que apontei, em que o Buda fala sobre a existência de Deus - uma visão com a qual concordo quase a cem por cento.

O Buda sempre negou a existência de qualquer princípio absoluto o Ser Supremo, pois isso podia ser outra fonte de apego, o que se tornaria uma obstáculo à iluminação. Tal como a doutrina do «eu», a noção de Deus pode também ser usada para tranquilizar e valorizar o ego. Os mais sagazes monoteístas nas religiões judaica, cristã e islâmica tomariam consciência deste perigo e falariam de Deus com uma reticência análoga à do Buda relativamente ao nirvana. Também insistiriam que Deus não era outro ser, que a noção de «existência» era tão limitada que seria mais correcto dizer-se que Deus não existia e que «ele» era Nada. No entanto, a um nível mais popular, é um facto que Deus é, frequentemente, reduzido a um ídolo criado à imagem e semelhança dos seus adoradores. Se imaginarmos Deus como uma versão em ponto grande de nós próprios, com aversão e gostos semelhantes aos nossos, a tentação seria grande de «lhe» atribir igualmente algumas das nossas esperanças, medos e preconceitos. Este Deus sedutor contribuiu para algumas das piores atrocidades religiosas da história. O Buda teria descrito a crença numa entidade divina complacente para connosco como algo «não construtivo»: só conseguiria fazer cair o crente na armadilha do egoísmo que devia transcendente. A vida da iluminação exige que rejeitemos semelhante falso apoio. (p. 116-117)

 

O clube de leitura volta quando a motivação e a paciência derem tréguas uma à outra e decidirem trabalhar em conjunto. E nunca se sabe quando isso irá acontecer