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Agora a Sério

Um local sério para se falar das coisas sérias de todos os dias. Só para pessoas que se levam muito a sério.

Agora a Sério

Um local sério para se falar das coisas sérias de todos os dias. Só para pessoas que se levam muito a sério.

A saga das compras

Ah a Black Friday, ah o Natal, ah vamos às compras todos os dias porque nos apetece e tudo está com desconto e tudo é lindo.

Ah como era bom se isto tudo fosse verdade, porque meter-me num centro comercial nestas semanas devia ser o maior prazer da vida mas é uma tortura.

Mete-se a pata no local e sorrimos: agora sim, vamos começar a divertirmo-nos. E começamos o processo de compras.

 

Fase 1: leva-se tudo

Entramos na primeira loja e parece o Mundo Encantado dos Brinquedos, perfeito para princesas. Passamos então ao ataque e entramos no pesadelo. OH MEU DEUS, quero levar tudo: quero aquilo, aquilo de que preciso, aquilo de que preciso em doze cores, aquilo que tenho sete peças iguais no armário, aquilo que nunca utilizei na vida, aquilo de que eu não gosto, aquilo de que eu nunca vou gostar, aquilo naquela cor horrível que eu detesto. Não interessa se só existe o XXXL ou o XXS, eu quero levar tudo, eu vou levar tudo.

 

Fase 2: olhar para a carteira

Com tanta maravilha para os olhos começamos a olhar para a carteira: beeem, tudo, tudo, não pode ser, mas há algumas coisas que podemos levar, certo? Olhamos para o relógio, temos de nos despachar, as pessoas vão começar a levar tudo portanto esta é a hora de atacar. Pensamos mentalmente nas peças de que precisamos e daquelas que gostávamos de experimentar. E lá vamos nós.

 

Fase 3: tudo vale

Agora é a altura de pôr tudo nas mãos: Camisola branca? check. Casaco de inverno? Check. Botas altas, botas curtas, check, tshirts que podem dar jeito no próximo verão check, check check check. E siga para os provadores, mas na fila lembramo-nos: só podemos levar 8 peças. E implementa-se a estratégia do o que-se-experimenta-e-o-que-se-leva-para-experimentar. E o resto? O resto vai para o provador lá de casa não tem limite logo algumas peças experimentam-se em casa e outras na loja. E se não gostar? 30 dias para devolver - e esta é a maravilha do capitalismo ocidental europeu, meus caros, aproveitem.

 

Fase 4: ficar horas no provador

E agora sim começa a diversão...se as coisas corressem bem...

Ui isto não me fica bem...mas é com estas calças e se for com as calças que trouxe?

E um vestido? Se calhar preciso de ir buscar um vestido...

Ah raios preciso de um básico a ver como é que fica isto...

Será que isto fica bem com aquele colete que eu não uso há dois anos? Nunca se sabe...

Eu tenho mais tshirts pretas ou brancas? Quantos pares de calças é que tenho? Estas estão com desconto mas tem de ser o tamanho acima...

Entramos e saímos dos provadores, trocamos peças que as meninas dos provadores estão a arrumar, pedimos para nos ir buscar o tamanho acima e abaixo só para comparar.

Meia hora depois, de vestir e despir as mesmas peças dez vezes, de combinar e descombnar, cheia de calor, com os cabelos em pé e farta de olhar para o espelho, temos umas 4 peças para levar.

 

Fase 5: a consciência acorda

Lá vamos nós, a sair do provador, com quatro peças na mão, com sorte uma delas é o que realmente fomos comprar e o resto é o que se apanhou.

Estamos quase, só falta a caixa. Mas o problema é que na caixa se demora muito tempo e ficamos muito tempo a olhar para as peças...

as peças que nós vamos comprar...

as peças que são nada do que nós queríamos...

as peças que não são maravilhosas...

E começam as dúvidas...

Será que levo isto?

Será que quero mesmo isto? Bah, isto não está assim tão barato quanto eu pensava.

 

De repente entramos na fase 6...o cérebro começa a funcionar, a consciência aparece, o racionalismo intervém e pensamos "para que vou gastar dinheiro nisto se já tenho isto tudo?"

E entramos na fase 7: olhamos para o lado, saímos da fila, deixamos tudo na primeira prateleira e vamos embora.

 

A tristeza de um dia de compras que não foi.

A tristeza de um sonho perfeito que ficou arruinado porque não há nada de jeito.

A tristeza de uma paixão que não se concretizou porque não se encontrou a cara metade perfeita.

A tristeza de uma manhã passada à procura de algo quando o que se realmente queria era que nos oferecessem uma mala Chanel para ficarmos com a vida feita.

 

Ai ai

 

Tanto se experimentou mas não se gostou de nada.

Mas não aceitamos a derrota! Vamos encontrar algo de jeito.

Saímos da loja, entramos na próxima mas nada parece o mesmo. As compras já não são cor-de-rosa, as botas já não brilham, os cachecóis parecem mantas de retalho, as malas parecem sacos de pano.

Mas continuamos à procura, à procura, à procura...até que paramos, abrimos os olhos e lembramo-nos:

"Posso sempre comprar um McFlurry!"

 

E lá vamos nós, antes de almoço, a correr para o McDonalds afogar as mágoas num gelado, porque um gelado cheio de calorias deixa-nos ricos e prontos para enfrentar um dia com roupas tão demodé que até uma pessoa mal vestida iria olhar-nos de esguelha.

 

Gostar de compras não é fácil, fica aqui escrito, a desforra está para vir.

 

Viver no bairro

Viver num bairro é como viver numa aldeia: todos se conhecem, todos têm os mesmos hábitos, todos fazem aquilo que lhes apetece porque é tudo muito seguro.

 

No meu bairrito, acontece-me de tudo, faço maluqueiras e parvoíces e nada me acontece...acham que não? Então vejam só o que me aconteceu no outro dia.

 

Fui ter com uma amiga, estacionei o carro à porta da casa dela (300m ao lado da minha), fui jantar a casa dela e depois não me apetecia pegar no carro para pô-lo na outra ponta do bairro. Então lá ficou ele.

No domingo, de manhã, preciso de ir às compras. Vou buscar o carro mas uma carrinha branca está a travá-lo. Pronto, vou só buscar o carro depois das compras.

Vou ao supermercado, encho o carrinho, estou no talho a fazer as últimas compras quando me lembro: "porra, deixei a carteira no carro!".

O que fazer? Vou-me embora assim do nada?

Sorrateiramente (mais a correr com cara de parva no supermercado), deixo o carrinho com as compras num canto, volto ao carro, tiro o carro, estaciono no centro.

Ao passar as portas de entrada lembro-me: "eish, tenho de ir buscar pão".

Passo à frente do supermercado, vou à padaria na outra ponta do centro buscar pão, entro no supermercado e o carrinho está intacto! Vou ao talho, vou para a caixa, pago tudo e vou toda feliz para o carro.

E chego ao carro e tenho uma multa da Loures Parque de 4 euros porque não coloquei parquímetro (mas é que nem em Lisboa se paga ao domingo!). E cheguei 5 minutos depois de me passarem a multa.

 

É assim a vida rebelde que se tem no bairro: deixa-se o carro ao pé do prédio dos outros, deixa-se as compras no supermercado, deixa-se o carro sem parquímetro. Porque quando vives no bairro, a única coisa de grave que acontece é quando alguém espirra.

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